Eleições municipais 2016 no Rio de Janeiro: Análise e considerações pós 2º turno

            Ontem, 30.10.2016, realizou-se o segundo turno da eleição para prefeito em várias cidades, incluindo a minha cidade maravilhosa. Foi o dia de os eleitores cariocas escolherem o candidato que comandará a prefeitura do Rio nos próximos quatro anos – 2017 a 2020 – considerando-se, naturalmente, que este termine o mandato.
As atribuições do chefe do executivo municipal e os poderes a ele conferidos são suficientes para ensejar que a sua escolha seja uma decisão muito bem pensada e ponderada pelos eleitores. Porém, o peso estatístico que voto de cada eleitor tem para a definição do candidato vencedor aliado ao descrédito dos políticos contribui para que boa parte dos eleitores não se interesse pela escolha de seus representantes, não comparecendo para votar – mesmo sendo o voto obrigatório em nosso país. O Gráfico 1 apresenta um comparativo de índices nos dois turnos das eleições.


O aumento do desinteresse pela política ou do desprezo pelos candidatos fica evidenciado pelo aumento do número de abstenções registrado a cada sufrágio. No primeiro turno das eleições municipais do Rio de Janeiro deste ano, 1.189.187 eleitores não compareceram para votar (24,28% do eleitorado). No segundo turno, o número de abstenções aumentou para 1.314.950 eleitores (26,85%). Os votos em branco e nulo somados aumentaram de 677.434 para 719.402 – de 13,83 para 14,69% do eleitorado.
Desse modo, o número de eleitores que não compareceram para votar somado ao daqueles que compareceram e não votaram em nenhum dos candidatos – o que se convencionou chamar de “não voto” – alcançou 1.866.621 (38,11% do eleitorado) no primeiro turno e 2.034.352 (41,53% dos cidadãos com direito a voto) no segundo turno.
Para se ter uma ideia da representatividade do “não voto”, ele superou com folga os votos angariados pelo candidato Marcelo Crivella que venceu a eleição, conforme esboçado no Gráfico 2.


Autoridades e analistas estão sugerindo reflexão acerca desse expressivo número de “não voto”: Por que 41,53% dos eleitores da cidade não votou em nenhum dos dois candidatos que chegaram ao segundo turno?
A meu ver, as abstenções podem expressar não apenas o número de eleitores que, por algum motivo, não estavam na cidade no dia da eleição, mas também daqueles que voluntariamente não quiseram comparecer em suas seções eleitorais para votar, ou seja, os indiferentes. Já os votos em branco e nulo podem ser interpretados como um gesto de protesto contra a classe política e/ou rejeição aos programas de todos os candidatos concorrentes.
Após o primeiro turno da eleição carioca, escrevi esse artigo com uma análise acerca do resultado e uma das minhas constatações foi que, no que diz respeito ao espectro ideológico-cultural, os discursos ditos “conservadores” de PRB e PSC angariaram 41,78% dos votos válidos; enquanto aqueles discursos mais ao “centro” – PMDB, PDS e PSDB – receberam 33,74%; e os que adotam discursos considerados “progressistas” – PSOL, PCdoB, REDE e PSTU – conquistaram 23,21 %. Com isso, concluí que a maior dispersão dos votos dos eleitores do discurso de “centro” permitiu que os eleitores do discurso “progressista” colocassem um representante no segundo turno para disputar a prefeitura com o candidato mais votado dentre aqueles de viés mais “conservador”.
No segundo turno, os candidatos se dedicaram a conquistar votos dos 1.635.798 eleitores que no primeiro turno votaram em outros candidatos, bem como tentaram convencer aqueles 1.866.621 eleitores que não votaram ou votaram em branco nulo a votarem em um deles. No final, o candidato com viés ideológico-cultural mais “conservador” saiu vitorioso, recebendo 59,36% dos votos válidos, enquanto o candidato representante de ideias “progressistas” conseguiu os outros 40,64%.
Aqui cabe uma pequena digressão: Utilizo-me dos termos “conservador”, “progressista” e “centro” sempre entre aspas, pois acho inapropriado rotular pessoas. Os rótulos embora sirvam para facilitar o entendimento, muitas vezes engessam a reflexão na medida em que criam prejulgamentos acerca dos argumentos do interlocutor, prejudicando o debate.
Digo isso porque existem pessoas que concordam com algumas ideias defendidas tanto vozes consideradas “conservadoras”, quanto com outras ideias propagadas por pessoas rotuladas como “progressistas”. Por exemplo, há pessoas que concordam que o cidadão deve ter o direito de adquirir uma arma de fogo e que o comércio de drogas deveria ser descriminalizado. Logo, nesse caso, chamar essas pessoas de “conservadores” ou “progressistas” não ajudaria o entendimento, ao contrário, o rótulo prejudicaria a análise.
Retomando a análise do resultado do 2º turno, vale avaliar os apoios dos candidatos que não chegaram ao segundo turno, os quais receberam juntos 1.635.798 votos no primeiro turno. Dentre eles, alguns declararam apoio ao Crivella, alguns ao Freixo e outros não declararam apoio a candidatos.
Cumpre destacar que a simples declaração de apoio destes candidatos à determinada candidatura no segundo turno não significa que seus eleitores os seguirão, porém, serve como sinalização ou, pelo menos, como parâmetro para análise a posteriori. O Gráfico 3 apresenta os três grupos de candidatos, conforme declaração de apoio, bem como a soma dos votos que conquistaram no primeiro turno da eleição.
Comparando o número de votos recebidos pelos dois candidatos a prefeito nos dois turnos, verifica-se que Crivella conseguiu conquistar 857.829 votos a mais do que havia conquistado no primeiro turno, enquanto que o Freixo aumentou seu resultado em 610.238 votos. Ambos os candidatos mais que dobraram os votos conseguidos no primeiro turno. Crivella aumentou sua votação em 101,86% e Freixo em 110,27%. O “não voto” também cresceu em 167.731 eleitores – aumento de 8,99%.
Entendo que não é possível afirmar com precisão como se deu a movimentação dos votos daqueles eleitores que não votaram em Crivella e Freixo no primeiro turno da eleição. No entanto, com base no número de votos adicionais recebidos pelos candidatos e na posição ideológico-cultural defendida por estes, é razoável inferir que a grande maioria dos 424.307 votos confiados ao Bolsonaro tenha migrado para o Crivella e que os 150.318 votos conferidos a Jandira, Molon e Cyro foram para Freixo.
Relativamente à movimentação dos eleitores que votaram em Índio e Osório – candidatos que declararam apoio no segundo turno à candidatura de Crivella – considerando-se que tais candidatos defendem uma agenda mais de “centro”, penso ser razoável considerar que a decisão de votos desses eleitores possa ser considerada mais alinhada com a dos eleitores do candidato Pedro Paulo. No que se refere aos eleitores da candidata Carmen – Partido NOVO – cujas ideias defendidas se destoam de todas as outras candidaturas, para facilitação da análise e considerando o reduzido número de votos, também os incluiremos nesse grupo.
Portanto, quanto aos 1.061.173 eleitores que votaram em Pedro Paulo, Índio, Osório e Carmen, no primeiro turno, considera-se razoável supor que estes possam ter contribuído significativamente para aumentar o “não voto” em 167.731 ocorrências e que os demais tenham sido divididos praticamente na mesma proporção entre Crivella e Freixo.
Por fim, o Rio de Janeiro mais uma vez recusou uma agenda “progressista” para a prefeitura da cidade, apesar de ter como alternativa um candidato que é bispo licenciado da Igreja Universal de Reino de Deus – que costumeiramente possui bastante rejeição dos eleitores da cidade não ligados à referida igreja.
Ademais, não foi apenas no Rio de Janeiro que se observou essa rejeição à agenda “progressista”. Considerando-se as prefeituras conquistadas por PT (254), PCdoB (80), REDE (5) e PSOL(2), conforme informação disponível no site do TSE[1], os partidos que tradicionalmente defendem uma agenda com viés  mais progressista conseguiram eleger prefeitos para 341 cidades, o que representa apenas 6,22% das cidades brasileiras.
No entanto, cabe ressaltar que a flagrante redução no número de prefeituras conquistadas por estes partidos nas eleições municipais de 2016 se deve principalmente pela péssima experiência de gestão além dos escândalos de corrupção evidenciados durante os 13 anos em que o PT ocupou a Presidência da República, conforme já comentado nesse artigo.
Claramente, os efeitos da enorme crise econômica e política em que o país está mergulhado foram contabilizados na conta do PT e daqueles partidos que mantiveram apoio ao PT durante e depois das manifestações populares, dos escândalos de corrupção e do julgamento e condenação da Presidente Dilma Rousseff por crime de responsabilidade fiscal.



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