Meu Rio de Janeiro e seus eleitores

Grande indiferença ao voto
O primeiro turno das eleições municipais 2016 da minha cidade maravilhosa apresentou algumas particularidades bem interessantes que suscitam uma análise mais atenta. A começar pelo elevado número de abstenções, votos brancos e nulos, representando 38,11% do eleitorado. O fato de haver dez candidatos concorrendo ao cargo de prefeito abre um considerável leque de opções aos eleitores e torna improvável eventual alegação de que "não votou em nenhum candidato porque nenhuma proposta o agradou".

O mais provável é que esse elevado percentual de "não voto" tenha sido decorrente da indiferença da maior parte desses eleitores à escolha de seus representantes. Ressalta-se que os dois candidatos que obtiveram mais votos e disputarão o 2º turno da eleição carioca, Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, obtiveram, somados, os votos de 28,49%[1] dos eleitores da cidade, conforme pode ser observado no Gráfico 1


As pesquisas de boca de urna
Outro ponto interessante a ser observado no pleito para a prefeitura do Rio de Janeiro foi a diferença constatada entre as pesquisas de boca de urna realizadas pelos institutos Datafolha e Ibope, publicadas dia 1.10.2016[3], e os resultados das urnas.
De antemão, vale dizer que embora se tenha ouvido e lido declarações, inclusive de candidatos, sobre a possibilidade de os institutos terem trabalhado os resultados de suas pesquisas para favorecer determinados candidatos em detrimento de outros, penso que não seria útil à nossa análise considerar tais possibilidades, que são meras conjecturas. Assim, a presente análise considera a fidedignidade dos resultados obtidos pelos institutos de pesquisa, os quais informaram suas margens de erro, sendo de +ou- 3 p.p. para o Ibope e +ou- 2 p.p. para o Datafolha.
Dito isto, observou-se desempenhos que extrapolaram a margem de erro – ao menos de um dos institutos de pesquisa – para os candidatos Marcelo Crivella, Jandira Feghali, Pedro Paulo, Flavio Bolsonaro e Marcelo Freixo, sendo que os dois primeiros obtiveram resultados inferiores e os três últimos superiores. Quanto aos demais candidatos, não foram observados movimentos fora da margem de erro. O Gráfico 2 explicita o comparativo.


O resultado da eleição em comparação às pesquisas de boca de urna leva à inferência de algumas situações que podem ter determinado tais mudanças. Inicialmente, há que se considerar a hipótese do “voto útil” – decisão de mudança do voto na última hora, motivada pelo resultado das pesquisas de boca de urna e com o intuito de levar ou evitar determinado candidato no segundo turno.
O voto útil pode ter determinado a migração de votos do candidato Marcelo Crivella para o candidato Flavio Bolsonaro, por exemplo, pelo fato de ambos serem considerados representantes de um pensamento mais conservador do ponto de vista cultural, em oposição ao candidato Marcelo Freixo que se coloca como representante das ideias progressistas.
Outra migração que pode ter ocorrido em decorrência da decisão do voto útil foi de votos dos candidatos Jandira Feghali e Alessandro Molon para o candidato Marcelo Freixo, baseados na proximidade ideológica propagada pelos candidatos.
Por fim, com base na análise comparativa entre as pesquisa de boca de urna e o resultado final das eleições, o voto útil pode ter direcionado intenções de voto dos candidatos Índio da Costa e Carlos Osório para o candidato Pedro Paulo, tendo em vista o posicionamento ideológico mais de centro dos referidos candidatos.
No entanto, não podemos deixar de lembrar o grande número de abstenções, que chegou a quase 25% do eleitorado e que, portanto, pode ter feito a diferença na proporção final da distribuição dos votos.
O voto útil
No que diz respeito ao “voto útil”, entendo o ponto de vista pragmático daqueles que adotam esta estratégia, porém, há que se considerar tal raciocínio sob a ótica do indivíduo. Ao decidir pelo voto útil com base na pressuposição de que seu voto somado aos votos das pessoas que ele eventualmente consiga convencer decidirá a eleição, despreza-se o fato de que seu voto não é um “voto de minerva”.
Óbvio que se fosse possível reunir uma parcela significativa de votos – por exemplo, entre 5 a 10% do eleitorado – em um voto conjunto (nos moldes do que ocorre nos acordos de acionistas de sociedades anônima), a escolha pragmática poderia sim fazer a diferença, mas não é o caso.
Perceba que muitas vezes nem mesmo em um pequeno grupo de amigos é possível se chegar a um consenso sobre quem seria o candidato menos ruim e com mais chances de passar para o segundo turno, vencendo o pleito final. Ainda assim, mesmo se esse grupo de amigos chegasse a um consenso, os votos deles e de eventuais pessoas que conseguissem influenciar dificilmente fariam diferença no cômputo final.
Quem costuma se preocupar com essa estratégia são os candidatos com propostas parecidas, por meio de acordos entre eles, firmando alianças. Mas, no primeiro turno de uma eleição com várias opções, os eleitores deveriam se preocupar sempre em analisar as melhores propostas e divulgar as melhores ideias.
Embora seja razoável considerar que se um elevado número de eleitores decidirem pelo mesmo voto útil este pode alterar o resultado final da eleição, é igualmente razoável ponderar que não é possível prever a decisão de voto de todos os eleitores e, portanto, a efetividade do voto útil somente poderá ser verificada a posteriori. Nem mesmo as pesquisas de boca de urna conseguem prever com exatidão o resultado do pleito.  Portanto, abrir mão de votar em uma proposta que acredita para tentar mudar o resultado final de um primeiro turno pode ser inócuo.
A eleição para a câmara de vereadores
A Câmara dos vereadores do Rio de Janeiro possui 51 vagas, as quais foram disputadas por 1.628 candidatos. De acordo com matéria do site UOL[4], 33 dos 51 eleitos já eram vereadores, o que significa uma taxa de renovação de 35,29%. O PMDB continuou com o maior número de vagas (10) e o PSOL foi o segundo que mais elegeu vereadores (6).
Um ponto que, a meu ver, vale um olhar atento diz respeito à relação entre o total dos votos recebidos pelos candidatos a vereador do partido – incluindo os votos na legenda – e os votos recebidos pelo candidato a prefeito do mesmo partido. Essa relação nos permite ter uma noção a respeito do efeito do voto útil, da força das coligações e do desempenho do partido enquanto difusor de ideias.
Inicialmente, vale observar o desempenho dos candidatos a vereador de cada um dos dez[5] partidos que tiveram candidato a prefeito, desconsiderando os votos aos vereadores de partidos coligados. Esses partidos obtiveram 1.500.900 votos, representando 51,37% dos 2.921.726 votos válidos a vereadores no Rio. O Gráfico 3 esboça a proporção de votos recebidos pelos candidatos a prefeito e a vereador dos partidos em relação aos votos válidos para cada cargo.



Cabe destacar que dentre os partidos em questão somente o NOVO e o PSTU não fizeram aliança com outros partidos para a candidatura à prefeitura. Isso é relevante pois com base nesta informação é possível avaliar o quanto as coligações podem ter ajudado no desempenho dos candidatos a prefeito e vereador dos partidos.
Percebe-se que PMDB, PSTU e REDE mantiveram proximidade na proporção de votos recebidos para seus candidatos a prefeito e vereador, já os demais partidos apresentaram relevantes discrepâncias.
PRB, PSOL, PSC, PSD e PCdoB apresentaram melhor desempenho para o cargo de prefeito em comparação ao de vereador, corroborando a hipótese de que as coligações estabelecidas podem ter ajudado a angariar votos aos seus respectivos candidatos à prefeitura.
O NOVO, cuja candidata a prefeitura foi a 9ª mais votada, foi o único partido que apresentou desempenho de votos melhor para os cargos de vereador quando comparado aos votos conferidos à candidata da legenda à prefeitura.  
Considerando-se a discrepância constatada na proporção de votos recebidos pelo partido para os dois cargos, quando comparado aos demais partidos, presume-se que, caso os eleitores que votaram para vereador nos candidatos ou na legenda do NOVO tivessem votado também em sua candidata à prefeitura, esta teria conseguido mais votos que o candidato Alessandro Molon – REDE e, dependendo do número de eleitores que votou na candidata e não votou em um vereador do partido, poderia, inclusive, ter ultrapassado o número de votos obtidos pela candidata Jandira Feghali – PCdoB, ambos políticos tradicionais.
Dentre as possíveis razões que podem ter feito com que sua candidata ao cargo de chefe do executivo municipal tenha recebido votos em proporção tão inferior aqueles conseguidos pelos candidatos a vereador do partido, pode-se inferir algumas hipótese, tais como: (i) o fato de o partido ter apenas um ano de homologação; (ii) o fato de seus candidatos a vereador serem todos novos na política, terem feito um bom trabalho de campanha e suas ideias inovadoras terem conquistado crédito junto a eleitores que, no entanto, quanto à prefeitura, preferiram optar por um candidato de outro partido; e (iii) eleitores simpatizantes às ideias do partido terem votado em candidatos a vereador do partido, porém decidido pelo voto útil para a prefeitura, considerando a impossibilidade de eleger a candidata do partido com base nas pesquisas de intenção de voto.
Outra perspectiva que retrata o ocorrido é a proporção entre os votos recebidos pelas legendas para os cargos de vereador em relação ao de prefeito. O Gráfico 4 apresenta a citada proporção, acompanhada pelo desempenho de cada candidato à prefeitura.


Conclusão
A eleição carioca de 2016 explicitou bem a diversidade de pensamento e postura existente entre seus eleitores.
No que diz respeito ao espectro ideológico-cultural: os discursos conservadores de PRB e PSC angariaram 41,78 % dos votos válidos; aqueles que se colocam mais ao centro – PMDB, PDS e PSDB – receberam 33,74%; e os que adotam discursos progressistas – PSOL, PCdoB, REDE e PSTU – conquistaram 23,21 %. A maior dispersão dos votos dos eleitores de centro permitiu que os progressistas colocassem um representante no segundo turno para disputar a prefeitura com o candidato mais votado dentre aqueles de viés conservador.
Quanto à importância conferida ao voto, por um lado, enquanto expressivos 38% do eleitorado se mostrou indiferente ao direito de escolher o chefe do executivo municipal – não comparecendo ou votando em branco ou nulo – por outro lado, há fortes indícios de que o chamado “voto útil” tenha sido adotado por boa parte dos eleitores sob a motivação de levar ou impedir a ida de determinado candidato ao segundo turno – fato que revela a importância que esses eleitores dão à escolha de quem comandará os rumos do município nos próximos quatro anos.
Os eleitores que se preocupam com as propostas dos candidatos que concorrem aos cargos eletivos, além de escolherem o candidato com as melhores propostas, deveriam se manter ativos na propagação de boas ideias, independentemente do desemprenho de seu candidato.
Certa vez, Milton Friedman disse que não adianta querermos escolher bons políticos, pois embora isso seja uma boa coisa não resolverá os problemas. Temos que escolher boas ideias e fazer com que os políticos tomem conhecimento que demandamos tais ideias, pois a política é um negócio e os políticos estão sempre concorrendo entre si pelos votos dos eleitores. Então, mais importante do que escolher os políticos certos, é escolher as ideias certas e, se for o caso, fazer com que os políticos "errados" façam a coisa certa. Com esse raciocínio, ele expõe um pragmatismo que realmente pode trazer bons resultados.
Contudo, vale lembrar que a propagação de boas ideias e o convencimento de pessoas é um trabalho árduo e diário, que demanda muita dedicação e bons exemplos por parte daqueles que se dispõem a assumir esse desafio.
É preciso cultivar a consciência de que enquanto os bons forem indiferentes à política, eles receberão o castigo de serem governados pelos maus.






[1]  Crivela + Freixo = (Votos para o Crivela + Votos para o Freixo) / nº de eleitores.
[2] Cabe ressalvar que o TSE e a imprensa divulgam os percentuais de votos brancos e nulos como proporção dos votos válidos. Dessa forma, o que têm sido divulgado é 5,50% de brancos e 12,76% de nulos. Porém, para melhor compreensão do gráfico, adotou-se a proporção em relação ao total de eleitores, fato que permite visualizar que o total de votos representa o somatório dos votos válidos, branco e nulos.
[5] O partido PCO não foi considerado para efeito desta análise pois sua candidatura foi impugnada.

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